Ricardo Loureiro*
Desde
o início do ano temos presenciado alertas quanto aos riscos de estouro de uma
possível bolha crédito no Brasil. O crescimento acelerado do crédito no país, o
alto comprometimento de renda do brasileiro com pagamento de dívidas e a
escalada dos preços dos imóveis nos principais centros urbanos costumam ser
elencados como sinais da existência desta bolha em terras brasileiras. Assim,
mais cedo ou mais tarde, sucumbiríamos a uma crise tal qual vem ocorrendo no
hemisfério norte.
Em
primeiro lugar, o termo “bolha” não é, a rigor, adequado ao mercado de crédito pois,
tecnicamente, “bolha” representa o descolamento significativo e prolongado do
preço de algum ativo financeiro ou real dos seus fundamentos. Mas, como bolhas
especulativas costumam ser precedidas por “booms” de crédito, acaba-se
utilizando, alternativamente e com certa liberalidade, o termo “bolha”.
Esta
associação entre “boom” de crédito e bolha especulativa foi justamente o que
ocorreu com os EUA e com vários países da Europa Ocidental: um longo período de
crédito farto gerando movimentos especulativos nos preços das residências. Mas,
para que esta “tempestade perfeita” possa acontecer é preciso um combustível
fundamental: a prevalência, por um tempo bastante razoável, de taxas reais de
juros próximas de zero, ou até mesmo negativas. E é aqui onde começam as
diferenças entre a situação do mercado de crédito brasileiro daquilo que
ocorreu no exterior. Nossa taxa real de juros é uma das mais altas do planeta!
Isto faz com que os bancos brasileiros não precisem, para se rentabilizar,
aventurarem-se por mercados de altíssimo risco, tal como ocorreu nos EUA e em
alguns países europeus.
Outra
grande diferença: no Brasil os bancos possuem baixa alavancagem e operam num
ambiente regulatório e fiscalizatório que é “benchmark” mundial. Lá fora, os
empréstimos de alto risco evoluíram em um impressionante vácuo do ponto de
vista regulatório e fiscalizatório, disseminando o risco através de operações
cruzadas com derivativos exóticos. Assim, a expansão do crédito no Brasil vem ocorrendo
sob rigoroso monitoramento por parte da Autoridade Monetária, que não se furta
em adotar medidas macroprudenciais para coibir certos excessos.
Há
quem diga que o mercado de veículos, fortemente influenciado pela expansão do
crédito ao longo dos últimos anos, seria o “subprime” brasileiro. Outros
enxergam na valorização dos preços dos imóveis a presença de uma bolha
imobiliária no Brasil. Não é a visão que compartilhamos. No caso dos veículos,
é fato que o preço de um zero km pode recuar pouco mais de 20% após o seu
primeiro ano de uso, fragilizando a garantia do financiamento. Mas é por isto
mesmo que, normalmente, se exige do comprador uma entrada mais ou menos
equivalente, no ato do financiamento.
Quanto
aos imóveis, as altas observadas de pouco mais de 100% em algumas regiões
metropolitanas no país, ao longo dos últimos três anos, refletem o forte
crescimento da demanda – induzida pelo elevado grau de confiança dos
consumidores, pela ascensão das classes C e D, pelos impactos das novas regras
introduzidas a partir de 2005, nos financiamentos imobiliários, pelo programa
Minha Casa, Minha Vida – e que não tiveram a devida resposta, no tempo e na
mesma intensidade, da oferta. Afinal, o setor imobiliário passou por quase
vinte anos de letargia caracterizado por baixo investimento em mão-de-obra, em produção
de insumos e em bancos de terrenos. Quando a demanda aflorou, a oferta não
conseguiu evoluir no mesmo ritmo e, por conta disto, os preços subiram. Logo, são
os fundamentos – e não bolha – que explicam a alta dos preços das residências. Além
disto, no caso dos imóveis, a maioria esmagadora são compradores finais e, no
Brasil, o refinanciamento de hipotecas praticamente não existe.
Uma
última consideração: a inadimplência dos consumidores está crescendo pouco mais
de 20% neste ano. Alguém poderia citar este fato como mais um sinal de bolha.
Porém, se há bolha de crédito, a inadimplência sobe depois e não antes do seu
estouro. Na verdade, a alta da inadimplência em 2011 foi devida à aceleração da
inflação no início do ano e não ao eventual estouro de bolha. Aliás, nossos
indicadores antecedentes já apontam para uma estabilização da inadimplência
ainda neste ano.
Em
suma, não vislumbramos existir bolha de crédito no Brasil. Temos, sim, um
movimento saudável de crescimento do crédito que, com a introdução do cadastro
positivo, tem tudo para se tornar mais um case
de sucesso perante a comunidade financeira internacional.
Presidente da Serasa Experian
e da Experian América Latina
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