AMÉRICO
TÂNGARI
JUNIOR*
"A diferença entre veneno e remédio é, muitas vezes, a dose”. A
lição do
alquimista suíço Paracelso, um dos pioneiros da medicina moderna no
início do
século 16, mantém-se atual quase 500 anos depois. Pode ser aplicada, por
exemplo, ao uso do sal e do açúcar no cotidiano das pessoas.
As duas substâncias, na
proporção adequada, misturadas à água,
compõem a solução de reposição oral contra a desidratação, popularmente
conhecida como soro caseiro, que salva muitas vidas. Ingeridas em
excesso,
porém, e por longos períodos, causam graves problemas para a saúde.
Sua relação com o paladar começa
nos primeiros meses de
existência, na fase oral, quando a boca suga o leite materno. Ao longo
dos anos,
novos alimentos expandem as fontes de satisfação. Mas a diversidade
alimentar
deve ser usada com parcimônia porque o exagero gera dependência, como se
constata nos casos de obesidade mórbida, nos quais a fruição só é
alcançada após
a ingestão de quantidades pantagruélicas de comida.
O bem-estar associado aos sabores avança na esteira das
experimentações
gastronômicas, haja vista a quantidade de programas e seções de
culinária na
mídia. Ao mesmo tempo, as recomendações de dieta se diversificam em
variações
incontroláveis (mais de 10 mil tipos). Extravagâncias chamam a atenção.
Alguns
hão de recordar a dieta recomendando comer somente gorduras para
emagrecer – sob
os agradecimentos penhorados do colesterol ruim.
Como equacionar a melhor conduta diante do bombardeio
informativo? Por
meio de um verdadeiro zigue-zague alimentar. Atenção especial deve ser
dada à
dupla sal e açúcar, inevitáveis em qualquer receita.
O sal está sob os altos cuidados da Sociedade Brasileira de
Cardiologia,
que fixa o limite de seu uso nos componentes industrializados em 20%.
Basta
lembrar que a tradicional refeição balanceada vem sendo trocada pela
mesa de
salgadinhos e outras guloseimas que as fábricas não param de despejar no
mercado. Restaurantes também reduzem a quantidade, compreendendo que 20%
de sal
a menos não afetam o sabor das refeições. A Organização Mundial da
Saúde, por
sua vez, recomenda a ingestão máxima de 5 gramas de sal
por dia,
dosagem suficiente e necessária para abastecer de iodo o hormônio da
tireóide.
Atenção: estamos consumindo o dobro disso, uma ameaça ao coração.
O açúcar acima do recomendado é um dos fatores da epidemia de
obesidade
da era fast-food, com matriz nos Estados Unidos e sólida ramificação
entre nós.
Recente pesquisa do IBGE mostrou padrões altos demais na ingestão de
açúcar (e
também sal e gordura saturada). O destaque vai para os refrigerantes,
que já
aparecem entre os cinco produtos mais consumidos pelos brasileiros. A
Associação
Cardiológica Americana constata que os americanos consomem mais que o
dobro do
açúcar tolerado pelo corpo humano (100 gramas diários).
Nós não estamos longe
disso. Boa orientação é o consumo de açúcar in natura, inerente ao
alimento,
como nas frutas. Ele tem efeito positivo no organismo, gerando o que se
chama de
“energia limpa”, combustível natural para as atividades diárias.
O cuidado com a saúde começa com a consciência alimentar. E o
segredo
para uma vida saudável e ativa é fazer o que dá prazer ao mesmo tempo em
que se
previne hipertensão, diabetes e arteriosclerose, causas comprovadas de
eventos
graves, como acidente vascular cerebral
(AVC) e infarto do miocárdio. No Brasil, existem mais de 30
milhões
de hipertensos, e estima-se que apenas 10% deles façam o devido
controle.
Recordemos Aristóteles: a virtude está no meio-termo, ou seja, no
bom
senso. Comer um salgado ou um merengue uma vez por semana não faz mal a
ninguém.
A pessoa conserva o bem-estar propiciado pelo paladar.
E é bom não esquecer de
aumentar os exercícios físicos, diminuir as altas ingestões calóricas e
manter o
diâmetro abdominal abaixo de 90
cm.
São recomendações conhecidas e de resultados garantidos. Não
hesite. Tome
a iniciativa de atender às demandas de seu corpo e de sua mente.
Américo Tângari Junior é médico, especialista em
Cardiologia
pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e Associação Médica Brasileira.
Integra
a equipe de Cardiologia Cirúrgica do Hospital Beneficência Portuguesa de
São
Paulo.
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