segunda-feira, 3 de maio de 2010

A MULHER QUE GRITAVA NA RUA

*Izaura Varella

Domingo passado, à noite, talvez lá pelas 21 horas, fui surpreendida com gritos de socorro, em frente à minha casa. Uma voz de mulher gritava desesperada, no meio da rua, muito mal iluminada, pedindo socorro. “O ladrão me atacou, socorro, me acudam...” Entre sair de casa sem saber o que estava acontecendo lá fora, resolvi olhar pela fenda da janela. Com muito cuidado, para não entrar num impasse que não me pertencia, fui tomando conta da situação. Vejam só, fiquei com medo de abrir o portão para socorrer a mulher com medo do ladrão que poderia ainda estar por ali. De fato um ladrãozinho de bolsa espreitava entre os galhos das árvores baixas e não foi percebido pela senhora que passava tranquilamente pela rua. Chamamos a polícia, que rapidamente atendeu o chamado. Mas e daí? Como fica o resto da história?
Quando a mulher foi atendida pelos vizinhos e levada para sua casa, sem a bolsa, sem documentos e sem dinheiro, depois de ter lutado contra o ladrão de esquina escura, entrei para o meu quintal.
Irritada, sim, com a proliferação de pequenos meliantes que andam por aí fazendo escola no crime. Há um número considerável de adolescentes e crianças se preparando para a grande escola do crime na cidade. Não só na cidade, mas em todo o Brasil. Somos hoje reféns dos marginais. Eles tem liberdade para ir onde quiserem e nós somos obrigados a trancafiar nossas janelas e portas, portões e muros e grades e alarmes para nos proteger da marginália. Fico pensando o que está acontecendo com nosso país. Há menos de 30 anos atrás podíamos dormir com as janelas abertas sorvendo o ar fresco da noite em dias de calor. Podíamos colocar nossas cadeiras nas calçadas e ficar sob a luz da lua conversando longas horas com os nossos vizinhos. Hoje mal sabemos quem são nossos vizinhos, trancafiados que vivemos, nem podemos mais deixar nossas cercas baixas para jogar conversa fora, como faziam nossas mães.
A minha prática criminal cotidiana tem-me dito, em quase todos os casos que sou convidada a acompanhar, que a maioria absoluta dos autores de roubos e furtos em Cianorte foram adolescentes acostumados à prática de delitos, desde a infância. Muitos tem uma ficha criminal admirável, com folhas e folhas discorrendo sobre seus antecedentes. Indo mais além, estas crianças são frutos de famílias descomprometidas, meias famílias, muitas vezes criados por avós, mães distantes, pais de ocasião. Não têm eles referências familiares fortes de boa conduta, de respeito aos direitos do outros e consciência clara de seus próprios deveres. Aliás, foram criados sem limites, sem deveres, são desencaminhados da vida, porque não tiveram outra opção. E como fazer opções quando se é criado sem amor e sem limites? E vem daí o grande desafio que nossa sociedade deveria enfrentar: como reverter o mal e amparar estas famílias? Difícil, quase impossível, mas possível com vontade política.
Graças a Deus, a Irmã Benigna Nazari com sua equipe, foi colocada em nossa cidade, por desígnios de Deus mesmo, e arrebanhou um número considerável destas crianças na Rainha da Paz. O mínimo que estas crianças aprenderem lá, já servirá de exemplo e referência para se construir uma vida de responsabilidade. Enquanto esta entidade estiver funcionando em Cianorte, nem tudo estará perdido!...
*Izaura Varella é advogada e professora em Cianorte-PR - E-mail: iatvarella@uol.com.br

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